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  Porto Alegre, 8 de Fevereiro de 2012 



Edição N° 26
Outubro 2009




Jair Soares
"Desmontar a previdência pública interessa ao mercado."

Crédito fotos: Arquivo Astec
A afirmação é de um estudioso disciplinado, guardião de um acervo de informações preciosas sobre a história da previdência social brasileira e dono de uma curiosidade que tem resultado na revelação de dados que justificam o título desta reportagem. Jair Soares refere-se às "idas e vindas de uma reforma sem projeto", mas que, de concreto já apresenta, por exemplo, a criação do instrumento PL 9, que introduz a previdência complementar que pode ser aberta ou fechada, pública ou privada, plasmando uma arena que deverá movimentar, em 2010, algo em torno de 670 bilhões de reais. Portanto, nada mais natural do que despertar a sede do mercado. Sobre este e outros assuntos ligados à questão previdenciária, Jair Soares conversou com o JA.

"O superávit da Previdência é superior a R$ 16 bilhões."

JA- A imprensa tem falado muito sobre a responsabilidade que o governo federal atribui aos funcionários públicos pelo déficit da previdência social. O discurso do governo federal também reforça essa imagem. Qual a sua opinião sobre isso?
Jair Soares - Culpar os servidores públicos é algo com que não concordo, porque não é verdadeiro. O déficit da Previdência não existe. Ela é superavitária e os números que comprovam essa informação são de domínio público, estão no balanço apresentado ao final de 2002 pela ANFIP (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Previdência Social): o superávit da arrecadação é superior a 16,78 bilhões de reais - resulta da arrecadação de 174 bilhões dos quais devem ser deduzidos 157 bilhões de reais em despesas. Estão incluídos aí não só o RGPS (Regime Geral da Previdência Social), mas também os servidores públicos federais. Me pergunto se se trata de jogar a sociedade contra essas categorias profissionais que, aterrorizadas, apressam suas aposentadorias, agravando as situações dos municípios, dos estados e da Federação, ou se é manipulação errada dos dados. O valor do déficit anunciado de setenta bilhões de reais é virtual e fica próximo dos 54 bilhões de reais de superávit primário de que o governo precisa para assegurar os financiamentos juntos aos organismos internacionais de crédito.

JA- A imprensa fala em uma proposta do Ministério da Previdência que prevê a criação de um pedágio para os atuais servidores que pretendam se aposentar antes do novo limite de idade mínima, com a possibilidade de redução de até 35% nos proventos. Quais são os pontos que devem atingir os funcionários públicos em atividade?
Jair Soares - Não é possível precisar como será o projeto do governo. Mas alguns pontos seguramente vão ser alterados. A idade mínima deve ficar em torno de 55 anos para as mulheres e 60 anos para os homens, com fixação de teto de proventos e exigência de contribuição para os aposentados.

JA- A imprensa tem falado muito sobre a responsabilidade que o governo federal atribui aos funcionários públicos pelo déficit da previdência social. O discurso do governo federal também reforça essa imagem. Qual a sua opinião sobre isso?
Jair Soares - Culpar os servidores públicos é algo com que não concordo, porque não é verdadeiro. O déficit da Previdência não existe. Ela é superavitária e os números que comprovam essa informação são de domínio público, estão no balanço apresentado ao final de 2002 pela ANFIP (Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Previdência Social): o superávit da arrecadação é superior a 16,78 bilhões de reais - resulta da arrecadação de 174 bilhões dos quais devem ser deduzidos 157 bilhões de reais em despesas. Estão incluídos aí não só o RGPS (Regime Geral da Previdência Social), mas também os servidores públicos federais. Me pergunto se se trata de jogar a sociedade contra essas categorias profissionais que, aterrorizadas, apressam suas aposentadorias, agravando as situações dos municípios, dos estados e da Federação, ou se é manipulação errada dos dados. O valor do déficit anunciado de setenta bilhões de reais é virtual e fica próximo dos 54 bilhões de reais de superávit primário de que o governo precisa para assegurar os financiamentos juntos aos organismos internacionais de crédito.

JA- A imprensa fala em uma proposta do Ministério da Previdência que prevê a criação de um pedágio para os atuais servidores que pretendam se aposentar antes do novo limite de idade mínima, com a possibilidade de redução de até 35% nos proventos. Quais são os pontos que devem atingir os funcionários públicos em atividade?
Jair Soares - Não é possível precisar como será o projeto do governo. Mas alguns pontos seguramente vão ser alterados. A idade mínima deve ficar em torno de 55 anos para as mulheres e 60 anos para os homens, com fixação de teto de proventos e exigência de contribuição para os aposentados.

JA- Qual é hoje, na sua opinião, a situação da Previdência Social no Brasil?
Jair Soares - O Ministério da Previdência é um caso à parte, já que tem orçamento especificado da Constituição Federal. Tem recursos da União, dos empresários, dos trabalhadores, dos Estados, dos Municípios, do Distrito Federal e dos concursos de prognósticos (as loterias administradas pela Caixa Econômica Federal). Conta, ainda, com dinheiro do Cofins, das contribuições das empresas e até da economia informal, através da CPMF. Além disso, é atípico por ter um fim bastante específico: consta do capítulo da seguridade social, no qual são tratados também a saúde e a assistência social. Mas a previdência é a única a ter recursos próprios. O problema é que esses recursos acabam sendo desviados para outras áreas. Apesar de ser contributivo e de repartição, mesmo sofrendo desmonte com tantos desvios para os programas da rede de proteção social, o pagamento das aposentadorias rurais os salários dos idosos, o sistema tem resistido.

JA- É possível dizer-se onde começou esse desvio?
Jair Soares - Minhas pesquisas voltaram no tempo até o ano de 1923 e apontaram que, em 1947, houve desvio de recursos da Previdência para custear despesas de implantação da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). Assim, em 1958, quando se aposentaram os primeiros vinculados ao programa, os recursos recolhidos ao longo do tempo já haviam tido outra destinação. Em junho de 1965, a Lei 4656 concedeu privilégios para a aposentadoria aos deputados e senadores. E, assim, os desvios para saúde e assistência social, saem do caixa para o qual apenas a Previdência arrecada.

"O governo 'dá corda' ao discurso de que aposentadoria integral do servidor público é privilégio, mas não fala na sonegação fiscal de R$ 826 bilhões/ano."

JA- Na sua opinião, por onde deveria começar uma reforma da Previdência?
Jair Soares - Primeiro pela idéia de eqüidade. Não se pode exigir mais dos servidores públicos, que contribuem sobre a totalidade das suas remunerações, enquanto os empregados da iniciativa privada contribuem sobre um teto. Se isso ocorrer, a qualidade do serviço público será afetada de imediato, pois muitos servidores mais qualificados vão migrar para a iniciativa privada, onde há outras vantagens, como o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Quem vai perder é a população, que paga pelo serviço.

JA- Diversas associações de servidores públicos de todo o Brasil publicaram recentemente um manifesto na imprensa nacional, apontando os equívocos no tratamento da questão: tentar-se confundir Previdência e Seguridade e argumentar que a aposentadoria integral do servidor público constituiria um privilégio. Como o senhor vê essas afirmações?
Jair Soares - Em minhas palestras, pontuo sempre que privilégio é algo que se obteve sem ter o direito. Portanto, cabe à autoridade acabar com o privilégio. Direito adquirido é conquistado legalmente, dentro do estado de direito democrático, sob a égide da lei. Enquanto o governo 'dá corda' aquele discurso, dados do boletim da ANFIP de 07/09/1999 apontam uma sonegação fiscal de 826 bilhões de reais. Rui Barbosa disse que "o aposentado, o jubilado, o reformado, o pensionista do Tesouro são credores da Nação por títulos definitivos, perenes e irretratáveis." Concordo com ele e pergunto: por acaso, o déficit virtual que o Governo publiciza pressiona mais a economia do país do que o déficit da dívida interna de um trilhão de reais? Há que se tomar cuidado com a fome do mercado, para que não se faça como no Chile. Lá, em 1982, a Previdência foi privatizada, criando-se vinte e dois fundos de pensão. O passivo foi assumido pelo Governo. Somente em 2017 vão aparecer os primeiros aposentados do sistema privatizado. No entanto, hoje, vinte desses fundos já são deficitários, porque utilizam os recursos para alvancagem econômica em outras áreas. Por isso, uma previdência pública bem fiscalizada oferece mais garantias.


Nascido em Porto Alegre, Jair Soares graduou-se Cirurgião-Dentista pela PUC/RS em 1961 e Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais também pela Pontifícia Universidade Católica, em 1977.

Chefe de Gabinete do Presidente da Assembléia Legislativa,
   Dep. Gustavo Langsch - 1960
   Dep. Alfredo Hoffmeister - 1965

- Chefe de Gabinete do Presidente do IRGA - 1963-1964
- Presidente do DECAM - Dept° de Compras do Estado - 1967-1970
- Secretário de Estado da Administração - 1970
- Secretário de Estado da Saúde - 1971-1979
- Deputado Federal - 1979-1983
- Ministro da Previdência - 1979-1982
- Governador do Estado eleito pelo voto direto - 1983-1987
- Vereador mais votado de Porto Alegre - 1992-1994
- Deputado Federal - 1995-1999
- Deputado Estadual eleito para legislatura 2003-2006



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Edição N° 9
Abril 2003


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