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  Porto Alegre, 8 de Fevereiro de 2012 



Edição N° 26
Outubro 2009




Fumar baseado não faz mal - baseado em quê?*

Substâncias psicoativas, ou simplesmente drogas, estiveram presentes nas mais diversas culturas ao longo dos tempos. Muda a droga, modifica-se o contexto, mas elas seguem sendo consumidas, ou pior, buscam-se novas substâncias ainda mais potentes. O necessário debate sobre o tema é alimentado tanto por novos fatos que vão surgindo como por mitos que se propagam. Pais, professores e profissionais da saúde são, com freqüência, pressionados diante de questões cruciais, cujas respostas nem sempre lhes parecem tão claras. Um destes mitos correntes, invocado com a pretensão de justificar um assim chamado uso recreativo ou social da maconha, é que fumá-la seria menos prejudicial à saúde do que fumar cigarros comuns (tabaco).

Nestas situações, devemos rejeitar posicionamentos alarmistas e preconceituosos, não fundamentados em evidências científicas, um certo tipo de fundamentalismo a la “pedagogia do terror”. Por outro lado, já que igualmente danosas e afrontadoras da verdade, não podemos compactuar com atenuações exageradas do problema, freqüentemente confundidas com posicionamentos mais progressistas, democráticos ou liberais.

Diversas alterações clínicas têm sido associadas ao uso da maconha, uma mistura de folhas, flores e outras partes secas e maceradas da planta Cannabis Sativa. Das mais de 400 substâncias químicas que contém, cerca de 60 têm parentesco com o THC (delta-9-tetrahidrocanabinol), seu princípio ativo mais importante. A partir de 1988, descobriu-se que as membranas de determinadas células nervosas (neurônios) possuem receptores específicos para os canabinóides. Modificações ao nível do hipocampo – uma das regiões do cérebro –, observadas pouco tempo após o consumo de maconha, produzem prejuízo de curta e média duração em diversas funções cerebrais e no comportamento, conforme está amplamente documentado. Achados de pesquisa recentes indicam que o uso crônico determina mudanças no cérebro similares àquelas encontradas para outras importantes drogas de abuso.

Como essas alterações não ocorrem no tabagismo, tais evidências já seriam suficientes para refutar a falsa idéia de que fumar maconha é menos prejudicial que fumar tabaco. Interessante, porém, é o fato que, além das alterações neuro-psiquiátricas, os efeitos adversos potenciais mais sérios e com maior força de evidência decorrentes do “hábito” de fumar baseados são a doença respiratória crônica e o câncer pulmonar – classicamente associados ao tabagismo. Restringindo a discussão às conseqüências adversas no pulmão, para o tabaco, há muito já se sabe que são relacionadas ao número de cigarros fumados (dose-dependente). Considerando que a maioria dos tabagistas fuma mais de 15 cigarros por dia enquanto os fumantes regulares de maconha menos de um baseado, e que os constituintes da fumaça produzida pela maconha e pelo tabaco são bastante semelhantes, postulou-se que fumar uns poucos baseados por dia deve provocar proporcionalmente menos dano pulmonar de longo prazo do que fumar regularmente um número muitas vezes maior de cigarros de tabaco. Contrariando esta hipótese, demonstrou-se que fumar habitualmente 3 ou 4 baseados por dia está associado com a mesma freqüência de sintomas de bronquite aguda e crônica e o mesmo tipo e gravidade de dano nas células que atapetam a via aérea central que fumar regularmente mais de 20 cigarros de tabaco por dia. O argumento inicial supunha que a dose inalada de constituintes da fumaça (alcatrão) é proporcional ao número de cigarros fumados, mas ignorou que características do fumar podem influenciar a quantidade de produtos da combustão que efetivamente alcançam as vias aéreas. Na seqüência, um interessante estudo comparou essas características, bem como a quantidade de produtos inalados e as alterações fisiológicas ao fumar cigarros de tabaco, de maconha (1,24% de THC) e de um placebo de maconha – maconha de onde se extraiu praticamente todo o THC (0,004%) – em homens que fumavam ambos os tipos de cigarro regularmente.  Este primeiro estudo em condições reais confirmou achados de pesquisas que utilizaram dispositivos para simular o ato de fumar os dois tipos de cigarro, destacando-se as seguintes diferenças:

    1. Os cigarros de tabaco são mais densamente enrolados e, ao contrário dos baseados, usualmente possuem filtro; consequentemente, a filtração é mais eficiente;

    2. Os baseados são fumados até deixar uma bagana, em média, menor do que a dos cigarros de tabaco, diminuindo ainda mais a capacidade de filtração; porém, como o tamanho inicial do cigarro de tabaco é maior, as quantidades fumadas de maconha e de tabaco terminam sendo semelhantes;

    3. Os padrões de inalação são marcadamente diferentes e, possivelmente, terminam sendo o principal determinante das diferenças discutidas: o volume inalado nos baseados é mais de duas vezes maior, o volume tragado um terço maior e o tempo de retenção da fumaça quatro vezes mais longo do que com cigarros de tabaco.

Independentemente da concentração de THC, o estudo mostrou que a carga de partículas que agride as profundezas da árvore respiratória termina sendo quatro vezes maior quando se fuma maconha do que quando se fuma cigarros de tabaco da marca habitual. Coerente com o achado, quantidade de monóxido de carbono no sangue de fumantes aumenta quatro a cinco vezes mais quando se fuma um baseado. Depois de fumar um único baseado, espera-se maior grau de prejuízo na captação pulmonar de oxigênio, redução na capacidade sangüínea de transportá-lo e prejuízo na sua liberação aos tecidos, onde é efetivamente necessário. Mais ainda, o THC provoca aumentos relacionados à dose no número de batimentos cardíacos – portanto, no trabalho do coração e na demanda de oxigênio pelo músculo cardíaco. Em indivíduos com doença coronariana, estes efeitos combinados podem resultar em angina ou enfarte.

Assim, se não compactuamos com exageros alarmistas, por outro lado, a evidência disponível serve para a convicção de que fumar maconha efetivamente não é menos prejudicial à saúde do que fumar cigarros de tabaco. A menos que se prove o contrário.


Bibliografia:
1. http://www.nida.nih.gov/Infofax/marijuana.html
2. Wu TZ, Tashkin DP, Djahed B, Rose JE. Pulmonary hazards of smoking
marijuana as compared with tobacco. N Engl J Med 1988; 318(6): 347-51.


* Mauro Soibelman - Médico - HPS/SMS - adaptado de artigo publicado com o mesmo nome no Jornal Centro de Estudos Luis Guedes, Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, HCPA, janeiro de 2002.



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