

Edição N° 26
Outubro 2009 |
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Fumar baseado
não faz mal - baseado em quê?*
Substâncias psicoativas, ou simplesmente drogas, estiveram
presentes nas mais diversas culturas ao longo dos tempos.
Muda a droga, modifica-se o contexto, mas elas seguem
sendo consumidas, ou pior, buscam-se novas substâncias
ainda mais potentes. O necessário debate sobre o tema
é alimentado tanto por novos fatos que vão surgindo como
por mitos que se propagam. Pais, professores e profissionais
da saúde são, com freqüência, pressionados diante de questões
cruciais, cujas respostas nem sempre lhes parecem tão
claras. Um destes mitos correntes, invocado com a pretensão
de justificar um assim chamado uso recreativo ou
social da maconha, é que fumá-la seria menos prejudicial
à saúde do que fumar cigarros comuns (tabaco).
Nestas situações, devemos rejeitar posicionamentos alarmistas
e preconceituosos, não fundamentados em evidências científicas,
um certo tipo de fundamentalismo a la “pedagogia
do terror”. Por outro lado, já que igualmente danosas
e afrontadoras da verdade, não podemos compactuar com
atenuações exageradas do problema, freqüentemente confundidas
com posicionamentos mais progressistas, democráticos ou
liberais.
Diversas alterações clínicas têm sido associadas ao uso
da maconha, uma mistura de folhas, flores e outras partes
secas e maceradas da planta Cannabis Sativa. Das
mais de 400 substâncias químicas que contém, cerca de
60 têm parentesco com o THC (delta-9-tetrahidrocanabinol),
seu princípio ativo mais importante. A partir de 1988,
descobriu-se que as membranas de determinadas células
nervosas (neurônios) possuem receptores específicos para
os canabinóides. Modificações ao nível do hipocampo –
uma das regiões do cérebro –, observadas pouco tempo após
o consumo de maconha, produzem prejuízo de curta e média
duração em diversas funções cerebrais e no comportamento,
conforme está amplamente documentado. Achados de pesquisa
recentes indicam que o uso crônico determina mudanças
no cérebro similares àquelas encontradas para outras importantes
drogas de abuso.
Como essas alterações não ocorrem no tabagismo, tais evidências
já seriam suficientes para refutar a falsa idéia de que
fumar maconha é menos prejudicial que fumar tabaco. Interessante,
porém, é o fato que, além das alterações neuro-psiquiátricas,
os efeitos adversos potenciais mais sérios e com maior
força de evidência decorrentes do “hábito” de fumar baseados
são a doença respiratória crônica e o câncer pulmonar
– classicamente associados ao tabagismo. Restringindo
a discussão às conseqüências adversas no pulmão, para
o tabaco, há muito já se sabe que são relacionadas ao
número de cigarros fumados (dose-dependente). Considerando
que a maioria dos tabagistas fuma mais de 15 cigarros
por dia enquanto os fumantes regulares de maconha menos
de um baseado, e que os constituintes da fumaça
produzida pela maconha e pelo tabaco são bastante semelhantes,
postulou-se que fumar uns poucos baseados por dia
deve provocar proporcionalmente menos dano pulmonar
de longo prazo do que fumar regularmente um número muitas
vezes maior de cigarros de tabaco. Contrariando esta hipótese,
demonstrou-se que fumar habitualmente 3 ou 4 baseados
por dia está associado com a mesma freqüência de sintomas
de bronquite aguda e crônica e o mesmo tipo e gravidade
de dano nas células que atapetam a via aérea central que
fumar regularmente mais de 20 cigarros de tabaco por dia.
O argumento inicial supunha que a dose inalada de constituintes
da fumaça (alcatrão) é proporcional ao número de cigarros
fumados, mas ignorou que características do fumar podem
influenciar a quantidade de produtos da combustão que
efetivamente alcançam as vias aéreas. Na seqüência, um
interessante estudo comparou essas características, bem
como a quantidade de produtos inalados e as alterações
fisiológicas ao fumar cigarros de tabaco, de maconha (1,24%
de THC) e de um placebo de maconha – maconha de onde se
extraiu praticamente todo o THC (0,004%) – em homens que
fumavam ambos os tipos de cigarro regularmente. Este
primeiro estudo em condições reais confirmou achados de
pesquisas que utilizaram dispositivos para simular o ato
de fumar os dois tipos de cigarro, destacando-se as seguintes
diferenças: 1. Os cigarros
de tabaco são mais densamente enrolados e, ao contrário
dos baseados, usualmente possuem filtro; consequentemente,
a filtração é mais eficiente; 2.
Os baseados são fumados até deixar uma bagana,
em média, menor do que a dos cigarros de tabaco, diminuindo
ainda mais a capacidade de filtração; porém, como o tamanho
inicial do cigarro de tabaco é maior, as quantidades fumadas
de maconha e de tabaco terminam sendo semelhantes;
3. Os padrões de inalação
são marcadamente diferentes e, possivelmente, terminam
sendo o principal determinante das diferenças discutidas:
o volume inalado nos baseados é mais de duas
vezes maior, o volume tragado um terço maior e
o tempo de retenção da fumaça quatro vezes mais longo
do que com cigarros de tabaco.
Independentemente da concentração de THC, o estudo mostrou
que a carga de partículas que agride as profundezas da
árvore respiratória termina sendo quatro vezes maior
quando se fuma maconha do que quando se fuma cigarros
de tabaco da marca habitual. Coerente com o achado, quantidade
de monóxido de carbono no sangue de fumantes aumenta quatro
a cinco vezes mais quando se fuma um baseado.
Depois de fumar um único baseado, espera-se maior
grau de prejuízo na captação pulmonar de oxigênio, redução
na capacidade sangüínea de transportá-lo e prejuízo na
sua liberação aos tecidos, onde é efetivamente necessário.
Mais ainda, o THC provoca aumentos relacionados à dose
no número de batimentos cardíacos – portanto, no trabalho
do coração e na demanda de oxigênio pelo músculo cardíaco.
Em indivíduos com doença coronariana, estes efeitos combinados
podem resultar em angina ou enfarte.
Assim, se não compactuamos com exageros alarmistas, por
outro lado, a evidência disponível serve para a convicção
de que fumar maconha efetivamente não é menos prejudicial
à saúde do que fumar cigarros de tabaco. A menos que se
prove o contrário.
Bibliografia:
1. http://www.nida.nih.gov/Infofax/marijuana.html
2. Wu TZ, Tashkin DP, Djahed B, Rose JE. Pulmonary hazards
of smoking
marijuana as compared with tobacco. N Engl J Med
1988; 318(6): 347-51.
* Mauro Soibelman - Médico - HPS/SMS - adaptado de artigo publicado com o mesmo nome no Jornal
Centro de Estudos Luis Guedes, Departamento de Psiquiatria
e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, HCPA, janeiro de 2002. |
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