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  Porto Alegre, 8 de Fevereiro de 2012 



Edição N° 26
Outubro 2009




"Nós não valorizamos devidamente o funcionalismo público"
Entrevista: Adeli Sell

 
Apesar da declaração, o Secretário da Produção, Indústria e Comércio de Porto Alegre garante que desconhece qualquer tipo de contrariedade do seu partido quanto às suas posições. Há onze meses à frente da pasta, ganhou notoriedade na imprensa por sair à rua em ações da SMIC, numa atuação controvertida, o combate aos ambulantes sem registro e às casas noturnas que perturbam o sossego da população rendeu-lhe brigas e até ameaças de morte. Mas, sempre de chapéu estilo panamá, ele garante: "não vou recuar!"

Natural de Palhoça, Santa Catarina, 50 anos, Adeli Sell é formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e foi professor de inglês e literatura. Dirigente estadual e nacional do Partido dos Trabalhadores, elegeu-se vereador em Porto Alegre, em 1996, tendo sido reeleito em 2000. Em dois de janeiro deste ano, tornou-se titular da SMIC, no meio do quarto mandato da administração da Frente Popular.


Como é a sua relação com os funcionários municipais?
Eu adotei para a vida o pressuposto de trabalhar coletivamente. Conto com cento e quarenta fiscais e em torno de duzentos servidores. Então, tenho poucos funcionários e, para dar conta da imensa lista de atribuições da SMIC, tenho que otimizar recursos humanos. Fui, nos primeiros dias da administração aqui, ao encontro dos funcionários: fiz uma reunião-geral, mesmo sendo período de férias, e tenho mantido grandes relações com as equipes e as chefias. Me pautei por constituir uma secretaria fundamentalmente baseada no funcionalismo. Tanto que, na fiscalização, não tem nenhum cargo de confiança (CC). Todos são funcionários de carreira e estão nas funções independentemente de suas posições político-partidárias. Nas chefias, inclusive, não existem filiados ao partido, que eu saiba. No licenciamento, tenho apenas o diretor que é CC.

É assim em toda a Secretaria?
Eu ainda tenho alguns setores em que a maioria é CC, como a Assessoria Comunitária. No entanto, eu desloquei para lá uma servidora tradicional da casa, para que, independentemente de quem passar por ali, um funcionário tenha toda a memória. Nós temos que abandonar uma tradição brasileira de que entra governo, sai governo, mudam todas as cabeças, a partir de cargos de confiança. Os CCs têm de ser apenas os cargos mais ligados à política que está sendo implementada pelo governo do momento, mas o cotidiano da secretaria tem de estar na mão de um serviço público estável.

Esta não tem sido a linha implementada pelos governos do PT. O senhor concorda?
Com toda a sinceridade, não tenho uma opinião precisa sobre isso. Eu acho que, em alguns momentos, sim:nós não valorizamos devidamente o funcionalismo público. Mas, na minha opinião, isso está mudando:o nosso partido está aprendendo a ser governo. Eu espero que o Governo Federal faça exatamente o que eu estou fazendo, porque não existe como governar a Nação sem se pautar pelo apoio do funcionalismo público, inclusive tensionando para que o servidor trabalhe em prol do desenvolvimento da sociedade e se sinta partícipe da administração.

O senhor verifica esse sentimento na SMIC?
Os funcionários aqui, com raras exceções, são muito atuantes. Temos poucos servidores, mas que fazem das tripas coração, porque estão verificando que têm suporte, têm um parceiro na cabeça da Secretaria. Sou de 'pegar no pesado':se tiver que sair junto, eu saio. Sou de compartilhar a gestão. Quando tenho dúvidas, sempre consulto um funcionário que tem experiência na área. Normalmente, prevalece a visão do funcionário, porque eu sou transitório aqui e posso errar com mais facilidade.

Existe uma reclamação constante entre os funcionários em geral, e entre os técnicos científicos em particular, de que, nos governos da Frente Popular, o ideológico é supervalorizado e o técnico, desvalorizado. Como o senhor vê isso?
Eu acho que as duas coisas são importantes: o conhecimento técnico profissional e a participação no cotidiano, fora da estrutura. Eu não sobreponho qualquer aspecto ideológico à gestão pública. O funcionamento da máquina deve se sobrepor às questões de cunho ideológico. Não há possibilidade de uma gestão profícua, audaz e competente, se não houver parceria entre o servidor e o gestor do momento, entre a Prefeitura e a população, entre a Prefeitura e os setores econômicos da sociedade. Se não houver essa sinergia, alguém está errado.

"Eu não sobreponho qualquer aspecto ideológico à gestão pública. "

Essa sua posição, que de alguma forma secundariza os CCs, não lhe traz problemas com seu partido?
Até aqui não me trouxe nenhum problema. Eu mantenho praticamente todos os CCs das gestões anteriores da Frente Popular. Trouxe apenas um assessor de gabinete - que nunca foi filiado a nenhum partido e participou de vários governos, desde Euclides Triches. É o doutor Edson Batista Chaves, hoje uma das pessoas principais do Projeto Viva o Centro, que mescla questões de urbanismo e de economia, porque é um economista. Mas tenho CCs de todas as correntes do Partido. Eu sou a secretaria mais plural da Administração de Porto Alegre.

O senhor tem alguma posição sobre o fato de a bimestralidade não estar sendo repassada para os vencimentos?
Os técnicos científicos são uma parcela importantíssima do funcionalismo público -têm massa crítica, sabem o que a gente faz de certo e o que faz de errado, e têm uma visão do que acontece na sociedade. Eu sempre quero que os funcionários ganhem mais, vivam melhor e tenham melhores condições de trabalho. O problema é que o caixa da Prefeitura hoje é mais forte do que os meus desejos. Com diria Nélson Rodrigues, "a realidade como ela é" não permite. Houve muita queda da arrecadação. São questões gerais e também locais. Por exemplo, é impossível que não aumente a arrecadação em Porto Alegre. Eu estou legalizando um conjunto imenso de empreendimentos que não tinham legalidade nenhuma. Nem alvará tinham. Eu estou multando no que tem que multar. Assim, a queda da arrecadação é transitória e acho que, já em 2004, teremos uma recuperação e aposto que 2005 será um ano muito bom.

Qual a relação do projeto de revitalização do centro com os socialmente excluídos?
Eu trabalho a inclusão social:estou fazendo com que nosso camelô tradicional mude da venda de produtos ilícitos para produtos lícitos, com conceito de produção local para consumo local. Mas é preciso separar o joio do trigo. Vendedor de CD, de cigarro, de óculos hoje no centro não é camelô - é bandido e marginal, que nos afronta, que tem passagem pela polícia e é batedor de carteira.

Não lhe traz problemas este tipo de declaração?
Eu tenho coragem de dizer que tem camelôs e tem bandidos, como também não me dobro diante do poder econômico. Tem casas noturnas importantes no centro que eu fechei e vou fechar para o bem do sossego da cidade. Há lugares que são casas de ilegalidade, locais de tráfico, de marginais, de prostituição, de exploração de menores e esconderijo de produtos pirateados. Eu estou conseguindo fazer isto porque não trabalho sozinho. O que faço tem apoio da Brigada Militar, do Deic, Denarc e de várias outras secretarias municipais, onde são funcionários de carreira que assumem a responsabilidade.

"Não existe como governar sem apoio do funcionalismo público. "

Pelas suas colocações, nem todo mundo que atua na economia informal no centro de Porto Alegre é um excluído social?
A política que está sendo implementada é 'a calçada, ao povo;ao povo, o sossego, a tranqüilidade e tolerância zero com qualquer tipo de ilegalidade'. Produto ilegal é produto apreendido. Não tem conversa, não existe coitadinho, todo mundo sabe o que é legal e o que não é. Nós precisamos fazer uma profunda luta política, ideológica e cultural. Tem muitos excluídos na ponta, vendendo na rua, sim, mas tem os lugares-tenentes do banditismo se travestindo de camelôs. É impressionanteo número de roubos que existe no centro. Por exemplo, não pode vender vale-transporte. Noventa por cento é roubado. Vamos parar com essa demagogia de dizer que é um coitadinho, que compra do vizinho para revender. Isso não existe!

Que tipo de resistências o senhor tem encontrado?
Eu estou criando um novo jeito de fazer as coisas. É ter respeito pela lei, contra o desregramento, pela civilidade, o respeito ao semelhante, ao direito de ir e vir sem ser assaltado, atropelado, o direito de trabalhar sem ser importunado por outro que não paga imposto. Isso se dá também nos processos contra casas noturnas que incomodam bairros inteiros.

O senhor teme por sua vida?
Eu tomo todas as precauções para não desistir do que estou fazendo e não vou recuar um minuto sequer, porque estou na linha justa. Esta luta o povo de Porto Alegre vai vencer.


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Edição N° 12
Dezembro 2003


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