Artigo Técnico
Porto Alegre, nós; o Guaíba
e o tempo
Marcelo Allet e Ligia Klein Ebbesen
Arquitetos da PMPA /SPM /SDU /GT ORLA
Na ótica de que cabe também ao técnico
discutir qual o modelo de urbanização que
queremos produzir, esta edição do Jornal
da Astec apresenta para o debate uma das questões
mais palpitantes da cidade: a reconciliação
com o Guaíba.
A virada para o século XX começa a alterar
o perfil da cidade com o início dos aterros na
península original, num tempo onde comprávamos
nas docas o peixe, a verdura e nos banhávamos nas
águas limpas de Ipanema e Guarujá. Porto
Alegre cresce, dinamiza sua economia e o porto é
construído. Em 1941, um novo episódio consolida
o afastamento. O Guaíba invade a cidade que, assustada,
vira-lhe as costas, nos anos setenta: um muro na Av. Mauá.
As indústrias trazem a poluição,
os caminhões e construímos a ponte, tirando
da cena, agora, os barcos.
O final do século XX traz a conscientização
ecológica, a valorização do patrimônio
ambiental urbano e, com ela, a preocupação
com a qualidade de vida nos grandes centros. Assim, a
década de 80 registra algumas intervenções
no sentido de uma possível reconciliação
entre a cidade e o lago: a implantação da
Av. Edvaldo Pereira Paiva e o restauro da Usina, que recolocaram
a água diante dos nossos olhos.
Início do século XXI: lá se vai
mais de uma década desde aquelas intervenções
e ainda não nos reconciliamos de todo. Orla acima,
o que se vê são privatizações,
ocupações irregulares e condições
impróprias para utilização. 2004:
a ninguém mais, senão a nós
porto-alegrenses, cabe a tarefa de otimizar esta reconciliação.
No âmbito do poder público municipal, ainda
não conseguimos evoluir para uma postura mais
empreendedora. Estamos limitados à nossa atribuição
constitucional de legislar sobre regras básicas
de ordenamento territorial.
Para os espaços da orla, estabelecemos recentemente
um conjunto de diretrizes de uso e ocupação;
indicando, a partir destas, um conjunto articulado de
propostas de intervenção.
São conquistas importantes, mas, ainda, somente
papel. Nossa orla continua lá, entregue aos maricás,
às ocupações irregulares e à
degradação ambiental. |