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  Porto Alegre, 8 de Fevereiro de 2012 



Edição N° 26
Outubro 2009




Modelo de gestão
Estado submisso: lucro privatizado e prejuízo socializado


Celso Antônio Três
Procurador Federal de Santa Catarina


Dono de posições polêmicas, Celso Três foi palestrante de evento organizado recentemente na capital pela Federação Nacional das Entidades dos Servidores dos Tribunais de Contas para discutir a corrupção e a degeneração das instituições no país. Sobre o contexto nacional e questões específicas de Porto Alegre, o procurador concedeu entrevista ao Jornal da Astec



"Aceitar um favor é vender a liberdade."


Qual é o contexto profissional do servidor público brasileiro da atualidade?
A constituição de 1988 o fez avançar, impondo concurso público na administração direta e indireta, regime jurídico único e isonomia salarial, entre outros. Posteriormente, foram se sucedendo retrocessos, como a flexibilização da estabilidade, culminando com a precarização da previdência pública. Funcionalismo concursado, qualificado e estimulado por dignas condições de trabalho e salariais não interessa a quem sempre ganhou com o Estado submisso.

Ao mesmo tempo em que se populariza um discurso favorável
à redução de CCs (Cargos de Confiança), os governos têm aumentado o número desses cargos, criando subterfúgios para aumentar a renda de seus quadros. O sr. vê alguma relação entre a tendência identificada pela Sociologia Política de pasteurização entre direita e esquerda e o aparelhamento da máquina pública por diferentes governos, de diferentes tendências, em diferentes níveis?

No Brasil, grande parte da elite econômica edificou seu império à mercê de relações promíscuas com o Estado, privatizando o lucro e socializando o prejuízo. Esses segmentos, a maioria vinculada a concessões de serviços públicos, empreiteiras de obras, beneficiários de grandes financiamentos oficiais (BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica), incentivos e anistias tributárias, sempre tiveram interesses pessoais catapultados pelo poder público. Exemplo disso são os dirigentes de grande parte das entidades empresariais. Historicamente, a maioria de seus presidentes esteve implicada com sonegação fiscal, delitos contra o sistema financeiro, calote de empréstimos em bancos oficiais etc, utilizando a entidade como espécie de escudo à impunidade. Também a elite de esquerda, como o PT, reproduz o modelo, fazendo do Estado instrumento de locupletamento, seja através de CCs, favorecimento de apadrinhados em licitações, a exemplo do reluzente publicitário Marcos Valério. Reluzente, diga-se, pela careca, eis que se trata do inédito fenômeno do publicitário "exitoso" e anônimo ao mundo, alçando a notoriedade pela descoberta dos escândalos.

"Moralidade administrativa, bandeira desfraldada na campanha e enrolada no exercício do poder."

Tramita na Câmara Municipal de Porto Alegre um Projeto de Lei Complementar, de autoria do Executivo, objetivando acrescentar o § 3° ao Artigo 68 da Lei Complementar nº 133, de 31 de dezembro de 1985, que estabelece o Estatuto dos Funcionários Públicos Municipais. O § 3° proposto dispõe sobre a possibilidade de a Administração Pública Municipal atribuir funções gratificadas pelo desempenho de atividades de direção e assessoramento superior a servidores públicos detentores de cargos de provimento efetivo de outra esfera governamental e que estejam cedidos para o Município de Porto Alegre com ônus para o seu órgão de origem. Como o sr. vê a reclamação da categoria de que a alteração força o profissional do serviço público a abandonar a posição de servidor-colaborador por causa do desprestígio técnico em favor da obediência ao partido no poder?
Tudo que foge do concurso público, avaliação, ascensão mediante critérios objetivos e técnicos denigre o serviço público. A cedência recorrente é outra excrescência. Poderia, em casos verdadeiramente excepcionais, postos cruciais, de necessária vinculação política, ser utilizada. Sua banalização é promíscua.

Pode residir aí também um facilitador para a corrupção e/ou um canal para o exercício de um nepotismo mascarado?
A célebre a máxima latina diz: "beneficium accipere libertatem vendere est"(aceitar um favor é vender a liberdade). O cedido deve favor a quem cede e a quem o recebe. Pior. Insere-se em ambiente funcional para o qual ele sequer concorreu de qualquer forma. Óbvia a fragilização que enseja a corrupção.

Esse projeto facilita a transferência de recursos do serviço público para os partidos políticos que ocupam o poder, através dos repasses feitos pelos CCs. Como o sr. analisa a criação de leis de autoria dos Executivos que resultam no aparelhamento da máquina pública pelos partidos que se encontram no poder?
Como já referi, é histórica a prática dos grupos que enriquecerem à custa do Estado. Naturalmente que quanto mais CCs, mais "soldados" do partido, travestidos de militantes.

A apresentação desse tipo de projeto denota a existência de um paradoxo entre o discurso generalizado em prol da geração de empregos e, de outro lado, um movimento pela concentração de recursos na mão de alguns recebedores ligados aos partidos que estão no poder?
O paradoxo principal nem é a geração de empregos. É a surrada bandeira da moralidade administrativa, sempre desfraldada na campanha e enrolada no exercício do poder.



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Edição N° 17
Dezembro 2005


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