Entrevista
“Estarmos juntos é o que vai fazer toda a diferença”
Carmen Padilha
Presidente eleita do Simpa
Depois de quase dez anos sem realizar uma eleição para escolha de seus representantes, o Simpa, que foi o primeiro sindicato de municipários do Brasil quando a Constituição de 1988 passou a permitir esse tipo de associação, foi tendo sua credibilidade corroída junto à categoria que representa. Após um longo e trabalhoso processo, porém, as eleições foram realizadas, em maio deste ano, resultando na escolha da professora Carmen Padilha para a presidência, liderando uma composição que busca forças, acima de tudo, na tentativa da construção de unidade.
JA - Como a chapa eleita encontrou o Simpa?
Carmen - Já se tinha noção. Todas as chapas de oposição já apontavam a crise política, financeira e administrativa. Mesmo assim, quando assumimos, o quadro encontrado superou todas as expectativas. Isso foi resultado de um Simpa que passou por um longo processo de desgaste, tornando-se completamente alheio à categoria e implementando um sistema de só atender aquela parcela que busca assistência. Mas, mesmo nessa área, o caos era completo: dívidas enormes, ações trabalhistas, mais de setecentos mil reais em dívidas para com funcionários demitidos, em função das quais são devidos encargos em atraso. Até o momento ainda não se pode fazer uma auditoria porque não há contabilidade dos últimos dez anos, nem estatuto original, o que dificultou a tramitação de documentos bancários. A estrutura da sede também está deteriorada: encontramos o gabinete dentário autuado pela Secretaria da Saúde. Estamos corrigindo as distorções, tratando de atender as solicitações para evitar que o atendimento odontológico seja fechado e mantendo os salários e os encargos em dia.
JA - Qual é a importância da recuperação do Simpa?
Carmen - Fez muita falta nesses dez anos, porque foi uma década defensiva para a classe trabalhadora, com muita retirada de direitos, a reforma da previdência, a perda da bimestralidade e hoje com a dificuldade de se recuperar perdas anteriores. Em todo esse tempo, nunca o Sindicato levantou a voz. O grupo que o dirigia tinha aqui, na verdade, um escritório de negócios.
JA - Qual foi o papel a ser desempenhado pelas associações?
Carmen - As associações ocuparam, em certa medida, o espaço que o Simpa deixou a descoberto. Tiveram uma postura sindical importante, agrupando-se no Fórum das Entidades que, mesmo com suas limitações e contradições internas, organizou e unificou a categoria para resistir à retirada da bimestralidade. Mas, os municipários queriam seu Sindicato de volta. A Assembléia Geral do Tesourinha, em 28 de setembro de 2005, apontou que o caminho era a retomada do Sindicato.
JA - O CORES deve orientar o estabelecimento de políticas por parte do Simpa. O que vai representar a eleição do Conselho de Representantes nesse processo decisório?
Carmen - Essa eleição é a última etapa para organização do Sindicato. Os representantes fazem o elo com a base, trazendo as demandas, as propostas e as preocupações. Mas, é uma experiência nova para todos, porque há dez anos não se tem isso de discutir as políticas e votar as propostas. Acima do Cores só há a assembléia geral da categoria.
JA - E como foi a participação dos municipários no processo eleitoral do CORES?
Carmen - Nas secretarias como Educação, Saúde e entre os aposentados, o CORES reflete o comportamento que já vem sendo demonstrado, com um processo eleitoral bastante disputado. O Conselho emana da base, tem um caráter de pluralismo e unidade, o que é muito positivo, porque é fundamental que o Simpa seja para todos.
JA - Qual será o papel das associações nessa nova etapa?
Carmen - Com o Simpa refundado temos um momento diferente: ao longo dos últimos dez anos, muitas associações se legitimaram sindicalmente. Por outro lado, têm a função de debater a questão profissional, um papel que o Simpa não pode cumprir. Associações e Sindicato se relacionam de forma solidária e fraterna, respeitando os espaços de cada um e colaborando nas lutas da categoria.
JA - O que é e qual o objetivo do Congresso do Simpa?
Carmen - Nosso compromisso é chamar o Congresso até 2007, buscando levantar qual é o Sindicato que os municipários querem, e com que caráter (centralizador ou federativo). Essas características serão estabelecidas em um novo estatuto e, mesmo o tempo de mandato desta diretoria será deliberado pelo Congresso. Até o momento, ainda não temos proposta da diretoria sobre o assunto.
JA - Qual a sua posição quanto ao panorama nacional?
Carmen - O movimento sindical tem vivido momento bastante defensivos por causa das reformas da previdência, trabalhista e sindical. Mesmo assim, no caso do Simpa, o foco tem sido a defesa da unidade da frente que foi composta buscando recuperar a entidade.
JA - Como estão as negociações com o governo municipal?
Carmen - Difíceis. Alcançamos a integralidade dos 4,63%, mas não há diálogo real, por que não basta nos receber, é preciso ter a intenção de negociar. A negociação real só existirá se houver mobilização da categoria. Nossa capacidade de pressão é a capacidade de estarmos juntos.
• Professora da rede estadual desde 1978, já em 1979 participou da primeira greve do CPERS Sindicato
• Nas greves de 1985 e 1987, atuou como dirigente do 39º núcleo do CPERS, tendo participado do Conselho Geral do Centro de Professores desde a sua criação
• Em 1995, fez o primeiro concurso para o magistério municipal e, em 1999, com o segundo concurso para professora de Língua Portuguesa em séries iniciais, exonerou-se do estado
• Em 2001 tornou-se Diretora para Assuntos Sindicais da Atempa
• Em 2004, assumiu como Diretora Geral
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