Entrevista Newton Luiz Terra
“É muito mais simples e barato prevenir”
Conversar com o Coordenador do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS, Newton Luiz Terra, é continuamente surpreendente, por várias razões. Com uma sucessão de receitas muito simples e praticamente sem custo, pode-se ter uma vida longa, produtiva, saudável e, sobretudo, cheia de satisfações. O principal, garante o médico, “é, primeiro, saber administrar o que é impossível evitar e, segundo, de algum modo, compensar os momentos de estresse”
JA – Porto Alegre já se orgulhou de ser a capital com a melhor qualidade de vida. Qual é, hoje, a situação?
NT – Uma pesquisa recente do Instituto apontou que 60% dos portoalegrenses são sedentários por definição. A parte física está esquecida, deixando as pessoas sujeitas a doenças graves. Falta apenas disciplina, pôr o seu próprio nome na agenda. E não precisa grande investimento: uma caminhada regular, 40 minutos, meia hora. Se não há como sair, em último caso, a pessoa pode caminhar parada ao lado da sua mesa de trabalho. O exercício físico é só a coisa mais importante que há na face da Terra em termos de prevenção para a saúde. Certa vez, alguém disse que se se pudesse colocar o exercício dentro de um frasco, seria o produto mais caro do mundo.
JA – Falando em custos, há uma série de questões relativas à saúde dos municipários de Porto Alegre. Por exemplo, não há nem políticas de prevenção, nem de assistência.
NT – Dizer que saúde preventiva é caro é um absurdo! Havendo estrutura de prevenção, avaliação de risco global através de exames físico e de laboratório, ou mesmo de imagem, o custo é irrisório se comparado ao de cirurgias complicadas para evitar enfarto e angina. Isso para não falar em aposentadorias precoces e situações limitantes, como a necessidade de próteses por causa de osteoporose e fraturas, ou hemodiálise por causa de pressão alta e diabetes.
JA – Em seus trabalhos o senhor fala que a saúde é garantida muito mais pelo estilo de vida do que pela genética. Como vencer dificuldades como as enfrentadas pelos municipários, de reduzida expectativa de crescimento e valorização profissional, achatamento salarial e condições de trabalho muito inadequadas?
NT – Todo empregador deveria se dar conta de que o funcionário é um ser integral, é um todo. Temos 300 mil mortes no Brasil, 22 mil no Rio Grande do Sul e um milhão de internações todo ano, por causa de doenças cardiovasculares que poderiam ser muito facilmente evitadas. O Instituto de Geriatria da PUCRS tem um projeto na Prefeitura de Glorinha, na Região Metropolitana, para passar noções de saúde para crianças. Mães, professoras e as pessoas envolvidas se comprometem com o estilo de vida e nós fazemos uma avaliação anual. A saúde dessa população na velhice será resultado disso. Por isso, é necessário se comprometer com esse estilo de vida desde cedo. No Japão existe a geriatria pediátrica. No Brasil, que é o sexto país em proporção de velhos no mundo, a própria medicina ainda vive uma cultura que serviria melhor na década de 1970, quando cada mulher entrava na maturidade tendo tido 5,8 filhos. Hoje, essa média caiu para 1,9. Contudo, a residência médica no país ainda oferece anualmente apenas 65 vagas para geriatria, contra duas mil para pediatria. Além disso, ainda nos falta uma medicina holística, um entendimento por parte dos próprios médicos do homem como um ser integral, cujo corpo não pode ser entendido como fragmentado.
JA – A PMPA não tem um plano de saúde para os seus servidores e a AFM, associação que poderia atender a estas demandas, enfrenta sérias dificuldades por falta de atualização nos repasses de verbas de procedimentos. A intranqüilidade gerada por este tipo de situação pode agravar a condição de saúde dos servidores?
NT – Eu não conheço dados específicos da Prefeitura de Porto Alegre, mas, no país todo, em geral, a saúde pública tem sido uma das áreas mais esquecidas pelo poder público. Fala-se muito em eutanásia, que é o procedimento pelo qual se busca abreviar o sofrimento de um doente reconhecidamente incurável. Mas a mistanásia é o que mais ocorre. A mistanásia é a eutanásia social, que quer dizer morte miserável, sem dignidade. É aquela que ocorre por omissão de socorro estrutural, que atinge milhões de doentes durante sua vida inteira e não apenas nas fases avançadas e terminais de suas doenças. A ausência ou a precariedade de serviços de atendimento faz com que pessoas com doenças que poderiam ser prevenidas ou tratadas morram antes da hora, com muita dor e sofrimento.
JA – A PMPA conta com um quadro onde a idade média do servidor é de 45 anos, faixa em que se começa a enfrentar, entre outras questões, a aproximação da aposentadoria...
NT – É preciso sempre buscar uma compensação para os desgastes: auto-conhecimento, planejamento, envelhecimento com religião, por exemplo, além de preparar-se para a aposentadoria. Algumas empresas já contam com equipes multidisciplinares para este fim. Do ponto de vista médico, é preciso ficar claro que a pessoa não pode se aposentar da vida. Do trabalho, sim. Da vida, não! Manter-se ativo pode produzir um retardo em processos demenciais, como a doença de Alzheimer, em até sete anos. Enfim, ou as pessoas mudam seus hábitos, ou qualquer trabalho preventivo que a medicina venha a indicar não terá nenhum valor.
Estresse é palavra derivada do latim que significa “pressão” ou “esforço”,
exercido pela própria pessoa sobre seu organismo e mente. Pode ser definido como a resposta fisiológica ou emocional a um estímulo externo que origina ansiedade e tensão.
Sugestões para lidar com o estresse:
1. Discuta seu problema com outras pessoas. Converse com alguém em quem você confie. Isso pode permitir ver novas alternativas de lidar com o problema.
2. Afaste-se das causas do estresse. Vá ao cinema, leia um livro, dê um passeio a pé. Fuja da tensão só por uns momentos. Isso vai ajudá-lo a sentir-se mais controlado emocionalmente.
3. Libere sua raiva. Faça algo construtivo que exija energia física (limpe a garagem, arrume a casa, organize o jardim). As endorfinas produzidas durante o exercício funcionam como um sedativo natural.
4. Reconheça quando comete erros.
5. Ajude outras pessoas. Não se preocupe só consigo mesmo, mas tente fazer algo pelos outros.
6. Lide com uma tarefa de cada vez. Seja paciente.
7. Estabeleça expectativas razoáveis. Ninguém é perfeito o tempo todo.
8. Não critique outras pessoas. As pessoas que se dizem decepcionadas pelo comportamento de outras em geral estão decepcionadas consigo mesmas. Em vez de criticar o comportamento dos outros, procure características positivas daquela pessoa e a ajude a desenvolvê-las.
9. Pare de competir em tudo o que faz.
10. Esteja disponível. Em vez de se afastar dos outros, tente manter-se disponível para outras pessoas.
11. Evite o isolamento. Seja social.
12. Procure dormir bem à noite. Deite-se só quando estiver com sono. Não beba café, chá, chimarrão, álcool ou qualquer outra bebida estimulantes antes de deitar.
13. Cultive pelo menos uma atividade ou hobby que enriqueça o seu dia.
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